Considerações sobre fracasso escolar

 

Chegamos ao meio do ano e já começam algumas preocupações com o desempenho escolar das crianças. Algumas escolas começam a sinalizar que algo não vai bem com o aluno, e, a notícia de que o filho não está respondendo  as notas exigidas pela escola, põe muitos pais em estado de preocupação.  Por essa ocasião, começam os questionamentos sobre o que fazer diante dessa situação, sendo muito comum os pais procurarem por consultórios médicos ou de psicologia,indagando se existe algum problema com o filho. Podem ser muitos os motivos das notas baixas, destacarei aqui os mais comuns, alertando  aos pais e professores que se estiverem atentos, podem evitar agravos. Ressalto que me refiro aos casos em que as notas baixas são repetitivas, e  o aluno se encontra com dificuldades para recuperar a média exigida pelo sistema de ensino.Proponho levar o leitor a refletir sobre esse assunto, em  02 tempos. Primeiramente sobre a responsabilidade da escola para com o bom desempenho de seus alunos e o segundo, sobre papel dos pais frente a noticia das notas baixas.  Vocês então já perceberam que não vou falar das crianças. Mas por que não? A resposta virá  adiante.

Vamos ao primeiro tempo, a escola. No contexto escolar existe um cronograma em que  matéria terá que ser lançada ao longo de um determinado tempo, o ano escolar. A expectativa é que o aluno responda com um aprendizado, que será quantificado por nota ou conceito.

Segundo tempo, os pais.  Estes esperam que seus filhos respondam as exigências escolares com boas notas. Entendem que é um indicador de  inteligência e para eles, é motivo de  orgulho. Mas e quando a criança está com um desempenho escolar ruim?

As queixas mais comuns da escola para com o aluno, com notas baixas, dizem respeito ao comportamento;  estar conversando muito ou brincando durante o tempo de aula, e/ou não fazendo os deveres exigidos; déficit de atenção e concentração. Quando isso ocorre, ele pode ser chamado pela coordenação a fim de ser alertado sobre o seu mau desempenho. E, se houver repetição das notas baixas, os pais são comunicados ou convocados pela escola.  Ao serem informados sobre as notas baixas, os pais, geralmente, demonstram o sentimento de preocupação.  Alguns brigam e/ou deixam as crianças de castigo, ou recorrem a ajuda profissional.

É muito  comum ouvir os seguintes relatos: “Ele tem a responsabilidade de tirar boas notas!”, “não consegue ir bem na escola, deve ter algum problema”. Isso de fato pode estar acontecendo, mas o que chama atenção é que esse discurso virou senso comum. Há uma repetição da queixa sem uma avaliação mais cuidadosa do que pode estar por detrás das notas baixas. Enquanto a escola está ocupada com as avaliações quantitativas, julga que a sua responsabilidade é apontar ao aluno que não está correspondendo a proposta da instituição de ensino; e os pais, em muitas das vezes, se dizendo preocupados, não se dão conta das suas dificuldades em se deparar com o fato de que o filho não está correspondendo as suas expectativas. Geralmente, os pais esperam que filhos realizem o que eles não puderam realizar, que sejam melhores. Mas quando isso não acontece, pode gerar frustrações. Alguns pais trocam o filho de escola sob a justificativa de que ele não se frustre, mas por detrás disso, estão se defendendo das próprias frustrações; outros podem adotar medidas rígidas de brigas e castigos de maneira indiscriminada,  pelo mesmo motivo de não estar conseguindo lidar com a frustração de não ter um filho nota 10. Ressalto, contudo, que nem sempre esses pais percebem, o fazem sem se dar conta. Eis o motivo desse artigo, como um alerta.

O leitor pode reparar que até então as queixas foram exclusivamente para a criança, não apareceu nenhum movimento, por parte dos adultos, de ouvir o que ela possa dizer, a esse respeito. Pois então, diante do cenário relatado convoco a algumas reflexões

Mais acima, chamei a atenção para o fato que a criança não é ouvida, ela é chamada a ouvir, o que faz grande diferença. O que acontece? a criança, não existe? são  muitas as queixam dos comportamento e das notas, mas poucos se dirigem a ela para ouvir o que tem a dizer, por menor que seja, sempre terá o que dizer, acredite! E, as vezes, o que tem a dizer pouco agrada aos adultos. As crianças também têm as suas queixas: dos professores, do ensino, das cobranças excessivas ou ausência destas, dos conflitos familiares, da falta de compreensão,etc.Muitas das vezes as notas ruins são indicadores da inabilidade do ensino ou das situações familiares, mas  será que isso é considerado? Estarão pais e escola, disponíveis para ouvir e mudar os seus posicionamentos?

A minha experiência na clinica, permite responder que muitos não têm disponibilidade para repensar as suas posturas. A maioria de pais e educadores estão em posição de se queixar das crianças. Eles não conseguem se dar conta de que em muitas das vezes produzem aquilo que se queixam. São muitas as crianças que chegam ao consultório com queixas de medos no período das provas; e, quando podem falar sobre o que sentem, dizem que o seu medo não é da prova ou da nota ruim em si, mas da postura de pais e professores. Dependendo do que é dito, ao longo do tempo, pode suscitar nas crianças ansiedades, irritabilidade, agressividade, desinteresse pelos estudos e até a famosa categoria diagnóstica “de transtornos da atenção e hiperatividade”.

Para concluir, respondo a pergunta que foi colocada no parágrafo inicial. Me propus a chamar a atenção de que os adultos falam da criança,  mas não para ela. Muitas das vezes apontam seus erros com tom de fracasso, fracasso escolar? Fracasso de quem?

Até a próxima!

contatos jaqueline.romariz@gmail.com

Jaqueline Romariz

Psicóloga / psicanalista Hospital Federal dos Servidores do Estado

Mestrado em Saúde Coletiva

Consultório particular

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